segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Júlio Lopes: não tenho responsabilidade direta com o acidente


Rio - O secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes, concedeu entrevista coletiva na tarde desta segunda-feira e garantiu que não tem responsabilidade direta no acidente com um bonde que matou cinco pessoas e feriu outras 57 em Santa Teresa, Zona Sul do Rio.
"Vou me defender. Tenho convicção de que a segurança não foi negligenciada. Não era minha responsabilidade direta. Responderei com tranquilidade a tudo que me for arguido. Tenho notas fiscais e provas de que que os investimentos foram feitos. Ocorreu uma fatalidade", afirmou. O secretário disse que vai contratar uma empresa pública para fazer auditoria e que o serviço seguirá suspenso até a conclusão deste trabalho.

>> FOTOGALERIA: Imagens da tragédia em Santa Teresa


Lopes confirmou que às 15h de sábado, o bonde conduzido por Nelson Correa da Silva se chocou com um ônibus. O condutor teria feito o registro de ocorrência e, nas palavras do secretário, deveria ter voltado para a oficina. Segundo Lopes, não há explicação para o fato do bonde ter mais de 60 pessoas quando deveria estar vazio.

Além disso, o engenheiro da Central, Cláudio Nascimento disse que a existência de um arame substituindo um parafuso pode ter sido feita por um motorneiro, de forma improvisada até a chegada na oficina. "Temos nota da compra do parafuso", garantiu, reforçando que o calendário de manutenção dos bondes está em dia. Júlio Lopes ainda disse desconhecer as queixas do sindicato dos ferroviários de que a situação dos bondes não é adequada.
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Integrantes da Associação de Moradores de Santa Teresa se revoltaram com as declarações de Lopes e tentaram protestar com faixas, acusando o secretário de omissão. A presidente da entidade, Elzbieta Mitkiewicz, era uma das mais indignadas. "Estou enojada. Ele (Lopes) jogou a culpa no morto, que não pode se defender".
Situação dos feridos
Entre as vítimas do acidente, ainda há quatro pessoas internadas no Hospital Municipal Souza Aguiar. O caso mais grave é do menino João Pedro, de 3 anos, que está em estado grave no Centro de Terapia Intensiva (CTI) da unidade de saúde do Centro da cidade. Outras duas pessoas estão no Hospital Miguel Couto. Há ainda três feridos no Hospital Copa D'Or e outros três no São Lucas, os dois em Copacabana, Zona Sul.
'Morreu como herói'
Muita emoção marcou neste domingo o enterro de três vítimas do acidente com o bondinho de Santa Teresa no Cemitério de Inhaúma. Foram sepultados o casal João Batista Soares, de 63 anos, e Ivone da Silva, de 52, e o motorneiro, Nelson Correa da Silva, de 57 anos. O cortejo do motorneiro reuniu cerca de 400 parentes, passageiros e moradores do bairro. Moradores providenciaram um ônibus para transportar quem quisesse ir ao velório de Nelson.
Foto: Alexandre Vieira / 
Agência O Dia
Perícia verificou problemas na conservação do bonde acidentado | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
O corpo da turista gaúcha Cláudia Lilian Almeida Fernandes será levado para o Rio Grande do Sul e o da menina Maria Eduarda Nunes, 12 anos está no IML, porque os pais, também vítimas do acidente, ainda estão internados. “Ele foi um herói. Fez de tudo para salvar os passageiros e não conseguiu salvar a própria vida”, disse o filho Nelson Júnior, 31 anos.
A mulher do motorneiro, Dulce Correa da Silva, passou mal. “Ele gostava do que fazia. Falava com carinho dos bondinhos 7 e 10, nos quais trabalhava. Ficava triste quando os bondes não funcionavam”, lembrou a sobrinha Caroline Costa Correa da Silva, de 19 anos.
Vários motorneiros exaltaram o profissionalismo de Nelson. “Era um excelente profissional. Falta é manutenção. Não por culpa dos funcionários, mas por falta de peça de reposição”, disse o aposentado Ricardo Gomes da Silva, 56. “Nelson foi o melhor aluno que eu tive”, resumiu Moisés Mendes da Silva, 78.
Parentes reclamam de abandono
Foto: Fabio Gonçalves / Agência O Dia
Vanja Bezerra, mãe de uma das vítimas, reclamou da falta de apoio do poder público | Foto: Fabio Gonçalves / Agência O Dia
Parentes dos feridos no acidente acusam o Governo do Estado do Rio de não apoiar as vítimas da tragédia de forma efetiva. Vanja Bezerra, mãe da psicóloga Lorena Maria Bezerra, de 27 anos, turista de Belém (PA) que estava no Rio para um congresso, ressalta a necessidade de um apoio do poder público para as pessoas que se feriram e seus parentes.

"Minha filha teve o rosto queimado e perda de massa na mão direita, com um dedo esmagado. Ela pode perder um dedo. O hospital - Souza Aguiar - cuida bem, mas as vítimas não tem um apoio objetivo. Representantes do governo vieram até aqui, pegaram os nomes das pessoas, mas nada além disso foi feito", cobrou Vanja, nesta segunda-feira.
De acordo com a mãe de Lorena, o trauma após esta situação pode durar a vida inteira e esta tragédia não aconteceu de uma hora para outra, pois há um descaso com os bondinhos que já dura algum tempo. "O responsável é o poder público. Exijo um tratamento digno para minha filha, mesmo quando voltarmos para Belém é necessário também um apoio financeiro", afirmou.
O marido da vítima Ingrid Figueiredo Ventura - que também veio ao Rio por causa de um congresso na Uerj, o arquiteto Raul da Silva Ventura, contou que a mulher dele está muito traumatizada com o ocorrido. Ele chamou a atenção para a sensação de abandono vivida pelos turistas. "O Rio é uma cidade turística, mas o governo não foi ouvir os turistas. É uma falta de cuidado muito grande, nós pagamos impostos esperando por algum tipo de auxílio quando acontece uma coisa destas", reclamou.

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