
Os “Retratos Históricos” apresentarão aos amigos alguns personagens famosos e pouco conhecidos da História russa. Nossos relatos serão protagonizados por estadistas, políticos, chefes militares, médicos, sacerdotes e outras personalidades que dedicaram suas forças à Mãe-Pátria.
Hoje falaremos de Fiodor Haas, médico russo de origem alemã.
Firedrich Joseph Haas nasceu em 1780 na vila de Bad Munstereifel em uma família de farmacêutico de poucas posses. Depois de terminar o curso de uma escola católica, estudou Filosofia e Matemática na Universidade de Iena e Medicina na Universidade de Viena.
Passou a ser chamado com o nome russo de Fiodor na Rússia, aonde chegou a convite do diplomata russo Nikolai Repnin. Ele havia atentado no jovem médico quando era um paciente seu. E prometeu a Friedrich uma ampla prática médica na Rússia.
Sem vacilar, Friedrich Haas toma o caminho de Moscou. Assina contrato com o Hospital Pavlovskaia e uns anos depois é elevado a médico-chefe desse estabelecimento. Ganhou rapidamente popularidade e tornou-se uma pessoa bem abastada. Andava de caleche puxado por quatro cavalos brancos. Comprou uma casa própria e adquiriu uma quinta e uma fábrica de panos nas imediações de Moscou.
O médico estrangeiro tomou gosto pela bondade e pelo caráter aberto do povo russo. Não tardou a aprender a língua russa. Adotou um menino órfão e o criou como se fosse seu filho consanguíneo. Dizia em cartas que lhe eram enviadas: “O caminho mais certo para a felicidade consiste em fazer outras pessoas felizes. Mas para isso é preciso conhecer as necessidades das pessoas, cuidar delas e não temer o trabalho, ajudando os outros com o conselho e a ação.”
Em 1825, Fiodor Haas recebeu o cargo de médico-chefe de Moscou e pouco depois era-lhe oferecido um lugar no Comitê de Tutela para os Estabelecimentos Prisionais. O convite é recebido de bom grado, ele chega a ser o membro mais ativo do Comitê de Tutela e paralelamente o médico-chefe de todas as prisões de Moscou.
Em suas visitas a prisões, o médico viu que os detentos sofriam de ausência de uma assistência médica adequada. Fiodor Haas não poupava forças para provar que todos eles tinham pleno direito de esperar pela misericórdia. Ao mesmo tempo que lutava para quebrar a resistência das administrações prisionais, ele insistia perseverantemente para que os presos fossem melhor alimentados e pudessem receber visitas de médicos. E no fim de contas venceu. Escusado é dizer que os reclusos receberam aquela notícia com imenso agradecimento e rezavam calorosamente pelo médico.
Ele busca apoio de umas pessoas influentes às quais solicita que seja instituído junto ao Comitê de Tutela o cargo de mandatário para os assuntos dos detentos e desde então cumpre esse dever árduo até o fim dos seus dias. Casos houve em que ao defender seus tutelados Fiodor Haas se imflamava e passava a discutir com as autoridades, assim ganhando mais inimizades.
Uma vez, teve que entrar em discussão com ninguém menos que o próprio arcebispo moscovita Filaret.
“O senhor está sempre falando sobre os inocentes condenados, porém tais não existem! – dizia indignado o arcebispo. – Se é que uma pessoa foi punida, significa que leva uma culpa.”
“Mas o reverendíssimo senhor esqueceu de Cristo! – replicou Fiodor Haas. As pessoas em redor ficaram silenciosas, pois até então ninguém tinha ousado falar desse jeito com o alto dignitário.
Todavia, após um minuto de silêncio, o arcebispo pronunciou humildemente: “Não, não fui eu quem esqueceu de Cristo, mas, pelo visto, foi Cristo que me abandonou.” E depois de fazer reverência ao médico, saiu.
Juntamente com o arcebispo Filaret e o comerciante mecenas inglês Archibald Marilease, Fiodr Haas fundou uma sociedade livreira que editava as Sagradas Escrituras, vidas dos santos e manuais para crianças. Foi às suas próprias expensas que Fiodor Haas editou um livro de sua autoria para as crianças, intitulado “ABC, da Boa Conduta, Ajuda ao Próximo e Não Emprego de Xingamentos”, o qual sairia com muitas tiragens.
Também não descuidava da sorte dos reclusos para os quais lançava umas edições especiais. E ajudava pessoas pobres jogando às vezes simplesmente carteiras com dinheiro no seu caminho. Tentava fazê-lo às escondidas, mas foi várias vezes identificado pela alta estatura e o velho casacão de pele de lobo.
É com seus próprios recursos que Fiodor Haas organizou em Moscou o primeiro hospital para pessoas sem teto. Eram lá trazidos homens e mulheres recolhidos nas ruas depois de atropelados por carruagens, congelados, desmaiados de fome e também crianças vagabundas. O pessoal apressava-se a aquecê-los, alimentá-los e, se possível, consolar e confortá-los. Enquanto falava com cada vítima, o próprio doutor esclarecia, compadecido, todos os detalhes de sua situação desastrosa. Prescrevia um tratamento e depois de receberem alta do hospital os pacientes eram providos de dinheiro para poderem chegar até a casa, sendo as pessoas solitárias e idosas colocadas em hospícios, ao passo que as crianças órfãs eram colocadas, se possível, em famílias abastadas. O pessoal para trabalhar naquele hospital era selecionado muito rigorosamente. Pessoas indiferentes e negligentes não eram aceitas pela Diretoria. “Doutor famoso por escusar, não sabe recusar” – corria então esse ditado popular entre os Moscovitas.
Assim passavam correndo os anos qual os cavalos brancos a levar o rico caleche do médico cada vez mais longe. Então não havia uma única pessoa que pudesse imaginar que aquele homem próspero e respeitado por todos pudesse brevemente vender sem o mínimo pesar sua casa, sua quinta, a fábrica e o conjunto de cavalos brancos famoso em toda Moscou. Para que? Ele gastaria todo esse dinheiro para ajudar os necessitados.
Fiodor Haas instala-se então em um apartamentozinho junto ao hospital. Um dia, um dos seus admiradores ricos oferecer-lhe-ia um par de belos cavalos e um caleche novo. E tanto os cavalos como o caleche seriam logo vendidos e a importância oriunda da venda seria gasta em auxílio aos pobres.
Fiodor Haas faleceu há exatamente 158 anos, em 16 de agosto de 1853. Foi enterrado a expensas do Estado. O caixão foi levado em braços bem até o cemitério. E em uma prisão de Moscou foi acesa uma lamparina perante o ícone comprado com uns escassos níqueis juntados pelos reclusos.
A sepultura de Fiodor Haas no histórico Cemitério Vvedenskoie de Moscou conservou-se até nossos dias. O modesto túmulo sob a forma de um pedregulho encimado pela cruz está cercado por uma grade de ferro-gusa ornamentada por grilhões recordativos das grandes vitórias alcançadas por esse médico em prol da misericórdia.
Em um patiozinho antigo de Moscou ergue-se um monumento ao Doutor Haas. De um pedestal alto está sorrindo de cabeça levemente inclinada o homem de uma bondade lendária. Para alguns, era “um santo médico”; para outros, “um esquisitão” e “um filantropo desmedido”. O bloco de granito traz a inscrição: “Fiodor Haas (1780-1853)" e a divisa de toda sua vida “Apressai-voz a Fazer Bem!”
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